TRANSFERÊNCIAS CULTURAIS E AMERICANIDADE
Zilá Bernd - UFRGS/CNPQ
Dada a novidade do comparatismo interamericano, a pesquisa nesta área deve ser especulativa e suscetível de revisão.
Gustavo Pérez Firmat
Em um primeiro momento, gostaria de situar a presente exposição no âmbito da linha de pesquisa que constituiu uma das quatro linhas do GT de Litteratura Comparada da ANPOLL e que, a partir de junho deste ano, se configura como um GT autônomo: Relações literárias interamericanas.
Esta linha surge para abrigar pesquisas comparadas entre as literaturas das três Américas e – seu desafio maior – para refletir sobre o estatuto do comparativismo literário interamericano. Esta necessidade emerge quando, a partir dos anos 80, iniciamos no Brasil um diálogo com os dois principais pólos de francofonia das Américas: Quebec e Antilhas. Desde a publicação de Confluences littéraires; Brésil/ Québec, les bases d’une comparaison, que editei juntamente com Michel Peterson, em Montreal, em 1992, a necessidade de estabelecer um estatuto para o comparativismo literário interamericano tornou-se premente, pois não é evidente que literaturas em situação periférica e emergente – como as americanas – pudessem entabular diálogo comparatista sem passar pelo “centro”, ou sem apelar aos conceitos emanados pelas literaturas que se consideram centrais a si mesmas como as literaturas européias.
Desde logo, tentou-se elencar autores, com vistas a constituir uma base teórica sólida para fundamentar as ambições comparatistas interamericanas. Ao conceber o projeto CD-ROM: Antologia de textos fundadores de uma teoria da literatura comparada interamericana, a preocupação foi a de cartografar nas literaturas das três Américas textos escritos originalmente em francês, inglês, espanhol e português, procurando detectar, de um lado, autores que desde o século XIX se preocuparam com a questão da dependência cultural no contexto literário do “Novo Mundo”, manifestando-se por uma produção literária autônoma nas Américas e, de outro, autores que de maneira mais ou menos explícita vêm se preocupando com o estatuto do comparatismo cultural e literário interamericano. Este trabalho que chegará à sua fase conclusiva em maio de 2001, chamou minha atenção para a ocorrência de transferências culturais e migração de conceitos de um pólo a outro das Américas. A título de exemplificação desse fenômeno, que podemos também chamar de transculturalismo, apresentarei a vocês o surgimento e a migração das noções de pertença à(s) América(s), de americanidade e americanização que se revelaram fulcrais para o estabelecimento de certos paradigmas do comparatismo interamericano.
Essa breve comunicação fará, portanto, em um primeiro momento, a comprovação de que o comparatismo interamericano começa a ser uma preocupação dos estudos culturais em geral e da crítica literária em especial, e, em um segundo momento, a demonstração de sua perfectibilidade, acompanhando a migração dos conceitos de americanidade e americanização e apontando a poesia como espaço privilegiado de circulação de tais conceitos, antecipando, em muitos casos, o que só anos mais tarde seria enunciado na forma de ensaio.
As bases do comparatismo interamericano
Para tentar estabelecer um embasamento científico ao exercício desse tipo de comparatismo, parto da reflexão do historiador e sociólogo quebequense Gérard Bouchard, cujas contribuições para a área de história comparada vêm se notabilizando. Retenho fragmentos de seu pensamento sobre as coletividades novas ou culturas fundadoras, definidas como sendo aquelas que, desde o século XVI, surgiram de transferências migratórias intercontinentais. Seu pensamento converge neste ponto com o de Darcy Ribeiro que, em sua Teoria do Brasil, apresenta uma tipologia das configurações histórico-culturais, classificando do Brasil, entre os Povos-novos (oriundos do caldeamentos de matrizes étnicas muito díspares) e o Canadá entre os Povos transplantados (com tendência a conservar as matrizes énicas originais da cultura-mãe). Na constituição dessas coletividades com passado colonial, presencia-se, basicamente, ao desenvolvimento de dois modelos: a reprodução idêntica (da cultura dos colonizadores) e a reprodução na diferença. No primeiro caso, a nova coletividade efetua uma espécie de clonagem da cultura, das idéias, da língua, etc. da sociedade-mãe, isto é, das sociedades européias, estabelecendo um padrão de continuidade. No segundo caso, a evolução cultural das coletividades novas se estrutura pelo desejo de ruptura com os valores, modelos e referências da cultura colonizadora, desenvolvendo utopias de recomeço e táticas de apropriação simbólica e de subversão dos discursos ritualizados. A esses dois modelos, eu acrescentaria ainda um terceiro: a hibridação, gerando, através de justaposições, telescopagens e intersecções, estéticas compósitas. Embora fique claro que entre esses dois modelos exista uma gama muito grande de variantes, pois uma tendência de continuidade pode ser marcada por seleções, distorsões, “esquecimentos”, deslocamentos de sentido (logo, por pequenas rupturas), enquanto o modelo de reprodução na diferença, embora caracterizado basicamente pela dessacralização das formas rituais, pode apresentar momentos de mimetismo, de prolongamento de velhas idéias e de fidelidade ao passado. O que pode ser de grande utilidade na prática comparatista é detectar, nos contextos literários de análise, quais as tendências predominantes – se de continuidade, ruptura ou hibeidação - o que deve evitar comparações simplistas e anacrônicas, pois que as trajetórias culturais têm ciclos diferentes no contexto interamericano. O crítico deve, pois, ficar atento aos movimentos transculturais, ou seja, de migração e de transferência de determinadas idéias-força, quando do seu labor comparatista, pois na grande maioria das vezes vai trabalhar com autores que se desconhecem uns aos outros, devido justamente ao grande isolamento em que ainda se encontram as literaturas das Américas. Esta reflexão pode dar uma base mais sólida ao comparatismo entre as literaturas do Quebec e da América Latina, por exemplo, pois, como se sabe, a tendência de continuidade predominou durante largo período da história quebequense, enquanto entre os latino-americanos e caribenhos se verificou a tendência oposta, a de ruptura, canibalização e hibridação. A situação pode conter ainda outras variantes uma vez que o esquema de continuidade e ruptura pode se dar de forma invertida quando se passa da cultura erudita para a cultura popular que, desde cedo, tanto no contexto brasileiro quanto quebequense, apresentou tendência à autonomia, à descontinuidade e à subversão dos modelos, ao mesmo tempo em que a cultura das elites tendia a reproduzir a cultura francesa de mameira idêntica. Fugindo de uma oposição simplesmente binária e linear, o método proposto chama a atenção não só para os diferentes mecanismos de distanciação (mise à distance) em relação à cultura dominante como para as mesclas de elementos heteróclitos e permite desenhar o mapa do processo de autonomização – descontínuo e inacabado - das literaturas das Américas, retraçando-se assim a história de seu processo de americanização.
A migração dos conceitos de América, americanidade e americanização
Enquanto os países latino-americanos estavam preocupados em afirmar cada um sua identidade nacional, os Estados Unidos através de uma metonímia hiperbólica, como refere Maximilien Laroche, apropria-se dos termos América e americano para denotar unicamente os Estados Unidos e seus cidadãos. Interessa ver em que momento surge, no âmbito das Américas, a utilização da palavra América com a intenção de despertar um sentimento de pertença ao continente, propondo de certa forma a construção de uma identidade transnacional. Neste caso é preciso estar atento às ambigüidades da palavra, como argumenta Laroche, ao estudar a poesia de W. Whitman e L. Hughes, apontando um jogo dialético no qual, apesar de ambos se considerarem americanos e usarem a palavra “América”, a americanidade de Hughes não remete à mesma americanidade de Whitman, em função da posição distinta que ocupam na sociedade estadunidense, sendo o primeiro negro e o segundo branco.
Fica, pois um alerta quanto à ambigüidade da palavra que pode ter um sentido abrangente e inclusivo, mas também limitador, remetendo tão somente aos Estados Unidos da América, sendo, portanto preferível falar das Américas no plural. Com relação à “americanidade”, sua utilização remete às vezes a uma tentativa ilusória de construção de uma identidade americana homogênea e de raiz única, o que constitui o ideal da modernidade, mas também à tentativa de recobrir a extraordinária combinação de elementos culturais díspares e heterogêneos em circulação, correspondendo ao ideal pós-moderno.
Salvo melhor juízo, quem por vez primeira, no espaço cultural da América Latina, se reapropria da palavra América é José Martí, em seu célebre texto de 1891 “Nuestra América”. Está embutida nessa proposta, uma utopia da modernidade, ou seja, a que se formatou com base na ilusão de se poder construir uma identidade homogênea para o contexto plural do continente. Tratava-se de uma missão impossível qual seja a de recobrir com uma palavra unívoca, sentidos múltiplos, dada a pluralidade de etnias e de culturas em contato no continente americano. A proposta de Martí, embora partindo da aceitação de uma América mestiça, foi construída a partir de um ideal de homogeneização, sem questionar os desafios representados pela prodigiosa heterogeneidade de etnias e culturas em presença no espaço americano.
Não existia ainda neste momento a visão que se tem hoje de que a noção de americanidade pode abarcar o conjunto de mesclas, hibridações e justaposições que ocorrem na geografia cultural americana. Esta percepção de uma americanidade heterogênea e híbrida só surgirá mais tarde com os ensaios de Lezama Lima sobre a expressão americana, de 1957. Segundo Irlemar Chiampi, no prefácio à edição brasileira de A expressão americana, “a noção de América para Lezama vai além do referente restritivo nela convencionalizado” (Chiampi, in LEZAMA, p.19). Ela seria mais ampla que a dos autores que o precederam como Ureña, Paz, Rodó ou Carpentier e englobaria também os Estados Unidos. Seu conceito de “protoplasma incorporativo”, em referência ao processo de formação cultural americano, aproxima-o dos pressupostos dos Antropófagos brasileiros.
O conceito migra para o Caribe francófono onde um grupo de poetas liderados por Patrick Chamoiseau expressam, através de um manifesto intitulado L’éloge de la créolité, sua necessidade de distinguir americanidade, antilhanidade e crioulidade, conceitos que, à primeira vista parecem recobrir realidades semelhantes. “A americanização e portanto o sentimento de americanidade que daí decorre, descreve a adaptação progressiva de populações do mundo ocidental às realidades naturais do mundo que eles batizaram de novo” (Bernabé, 1989, p. 30). A americanidade, na concepção desses intelectuais martiniquenhos, estaria condenada a um certo isolamento, enquanto a crioulização seria um processo bem mais abrangente que implica dois movimentos: 1) adaptação de europeus, africanos e asiáticos ao Novo Mundo; 2) confrontação cultural entre esses povos num mesmo espaço no qual criam uma cultura sincrética, dita crioula (Bernabé, 1989, p.31).
Dez anos após a publicação de O Elogio da crioulidade, Patrick Chamoiseau, retoma, em Écrire en pays dominé (1987), o conceito de crioulização definindo-o como o conjunto de mecanismos evolutivos de relações, encadeadas de maneira complexa e acelerada no mundo americano. “Eu me torno o que sou no meu apoio aberto ao Outro. E esta relação ao Outro me abre em cascatas de infinitas relações a todos os outros, uma multiplicação que funda a unidade e a força de cada indivíduo: Crioulização! Crioulidade!” (Chamoiseau, 1987, p.202).
Se no plano da história das idéias, o conceito de americanidade e americanização se modifica a cada migração, caracterizando-se por um alto grau de ambigüidade, o que se observa na produção poética é que a América assombra o imaginário dos poetas desde os primeiros séculos. Pierre Nepveu, em seu livro de ensaios intitulado Intérieurs du Nouveau Monde, mostra que as representações da América, nos primeiros séculos da colonização, revelam o deslumbramento dos autores com a natureza e as grandezas do continente, permanecendo sem exceção em um nível de exterioridade, estranhamento e exotismo. O que interessa a Pierre Nepveu agora é flagrar o aparecimento do interesse dos poetas pelos “interiores”, isto é pelas manifestações do espírito e da cultura no contexto americano. O crítico vê na poesia do poeta Paul-Marie Lapointe uma das raras tentativas da poesia quebequense de “penetrar na alma americana, do interior de sua história paradoxal”. Sua poesia deixa de resumir-se apenas ao elogio de uma geografia sedutora para tornar-se uma tentativa de apreender a América em sua interioridade e em sua pluralidade: sua América não é só a dos índios, nem só a dos negros ou brancos, mas de todos ao mesmo tempo (Nepveu, 1998, p.189).
Essa representação plural da América também é retomada pelos escritores da negritude. No início da década de trinta, o movimento negro vai se organizar em uma dimensão transnacional e a afirmação da identidade negra estará articulada à sua inserção no espaço americano. É antológico o poema de Langston Hughes “Eu também canto a América”:
Eu sou o irmão negro/ Eles me mandam comer na cozinha/ Quando chegam as visitas/ Mas eu rio / E como bem / E cresço forte […] Eu, também sou América
É interessante notar que o poeta não afirma “eu também sou americano”, mas “eu, também sou América”, mostrando que a América não é apenas branca; ela também é negra.
No contexto do Caribe, Nicolàs Guillén inclui, em seus Poemas de amor, de 1964, as “Coplas americanas” nas quais dialoga com uma América “malherida” que ele quer palmilhar da Argentina a Guatemala, do Paraguai a Porto Rico. Convoca o “pueblo de todas partes” e invoca a memória de heróis americanos numa perspectiva transnacional, pois fala de Martí e Bolivar cuja voz é trazida pelo vento de “nuestra América”.
O notável poeta brasileiro da década de sessenta, Solano Trindade, dialoga com Guillén e Hughes, afirmando sua identidade negra pela via da integração ao espaço americano. Seu poema “Também sou amigo da América”(in Cantares ao meu povo) revela traços de intertextualidade com o poeta norte-americano:
América
Eu também sou teu amigo
Há na minh’alma de poeta um grande amor por ti
Seus versos correspondem à formulação de uma utopia de reconstrução tendo como alvo o sonho de uma grande civilização panamericana com a integração de todas as etnias e todas as culturas. Em outro poema “cantares da América”, a América é o lugar da reapropriação simbólica dos elementos da cultura negra que já não é mais africana, mas americana e a identidade negra poderá melhor se afirmar na relação com os demais povos da América, na inscrição desta cultura no âmbito do continente americano.
Refletir em termos de americanidade e/ou crioulização significa a ultrapassagem dos limites das identidades nacionais, na medida em que a consciência de americanidade transcende a identificação com a nação, esgarçando as preocupações identitárias para um plano transnacional.
Referências Bibliográficas:
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